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quinta-feira, 22 de março de 2012

Família alargada

Uma pessoa quando nasce tem só uma certeza - aquela de que mais tarde ou mais cedo deverá morrer. O resto - o que se passa entre as duas extremidades da linha vital - improvisa-se. Às vezes o que se improvisa bate certo, outras menos certo, e às vezes corre mesmo mal. Inevitavelmente quando alguém morre fazemos o balanço do que foi bem e do que foi mal improvisado. E se a vida de quem morreu nos tocou de alguma maneira damos por nós a pensar o que poderíamos nós ter improvisado para fazer as coisas andarem melhor para todos.

quarta-feira, 21 de março de 2012

Autopsicoanálise II


Estava na hora de sonhar acordado.
Subitamente, misturada no turbilhão silencioso de imagens que desfilam fugazes na pantalha do meu consciente ainda meio adormecido, uma sensação fria, estranha, palpável, bem focada, toma forma. O filme rodopiante pára por brevíssimos instantes, o tempo apenas suficiente para reconhecer o meu primo, acabado de morrer, e para ter a absoluta certeza que ele morrera de um ataque cardíaco. Sobressaltei-me. Abri um olho e vi as horas: 6,30. Ajeitei a cabeça na almofada e voltei à letargia do sonho acordado.
Pela manhã, ainda cedo, a filha, a Ana Rita, telefonou lá para casa a dar a notícia.
Acabei de ler no DN online que “ o realizador de rádio José La Féria morreu hoje pelas 6,30 vítima de um ataque cardíaco”.
Sou profundamente racional. A razão segreda-me constantemente que o céu e o inferno, as almas e os espíritos, são conceitos que se alimentam ancestralmente de um dogmatismo religioso cuja veracidade esbarra no meu agnosticismo militante.
Porem, há coincidências que me assustam.

segunda-feira, 19 de março de 2012

A canção do Avô Zeca

Hoje penso a todos estes pais:
O meu irmão, o meu primo Carlos, o Pato Donald e o meu tio João celebram o dia de hoje porque são pais uma vez. Foi o primeiro ano em que a Adelaide teve consciência da festa e fez questão de dar em mãos o presente ao seu "pepè".
O Tio Zé celebra o dia de hoje porque é pai duas vezes. Pergunto-me o que terá feito.
O meu cunhado Luís e o avô Elio celebram o dia de hoje porque são pais três vezes. O primeiro com uma casa saudavelmente turbulenta, o segundo com uma vida que momentaneamente lhe foge do controlo.
O Tio Toninho celebra o dia de hoje porque é pai quatro vezes. Imagino o entusiasmo que sente com a sua primeira neta.
O meu pai celebra o dia de hoje porque é pai oito vezes. E encara com satisfação e sentido de humor a bagunça de duas gerações de filhos.
O Ricardo teria celebrado o dia de hoje por ser pai quatro vezes. Penso na dor que sentirá a Patrícia porque o nosso Ricardinho não chegou a conhecê-lo.
O Jacinto teria celebrado o dia de hoje por ser pai oito vezes. Imagino quantas vezes terá o Luis pensado nele, hoje.
O meu avô teria celebrado o dia de hoje por ser pai 11 vezes. O Avô Zeca fazia questão de ser o primeiro a telefonar, quase ainda madrugada, a quem fazia anos. Tinha um entusiasmo quase infantil que desarmava a alma mais dorminhoca (leia-se Carlos) e que o acompanhou até ao fim. Foi a pensar nisso que telefonei ao meu pai hoje não eram ainda as oito de Portugal.

A Escolha

Quando nascemos temos uma herança: a família.
Os amigos, de entre a muita gente que conhecemos ao longo da vida, somos nós que os vamos escolhendo.
Escolhemo-los na infância dos bancos da escola primária ou dos desafios com uma bola de trapos; escolhemo-los na juventude dos mergulhos na praia ou dos bailaricos ao fim da tarde; escolhemo-los nos medos da contestação política; escolhemo-los nos horrores da guerra; escolhemo-los nos interesses da parceria profissional. Nem sempre escolhemos bem, mas somos nós que escolhemos, a escolha é livre, e sentimo-nos bem quando tambem somos escolhidos por quem escolhemos, principalmente quando escolhemos uma companheira.
Famíla a gente não escolhe, é-nos imposta. Quer queiramos quer não, a famíla tem-se, já nascemos com ela, não temos a oportunidade de a escolher antes de nascer. Tios, avós, pais ou primos, bons ou maus, são os que temos e ponto final.
Hoje recordo o meu pai.

sábado, 17 de março de 2012

Os curadores de doenças

Fomos visitar a Giulia ao hospital Villa delle Querce, em Nemi. Foi transferida  ontem para a unidade de recuperação motora. Aqui deverá fazer fisioterapia para voltar a caminhar. Dizem que é um centro de excelência. Dizem... mas referem-se apenas à capacidade técnica dos médicos. Infelizmente é mais um daqueles hospitais onde reina a desumanidade dos curadores de doenças.

domingo, 11 de março de 2012

Benvinda Primavera!

A nossa actividade familiar de hoje foi dedicada à Primavera. Foi o primeiro dia do ano, depois do frio e da chuva, em que o prado convidou ao pique-nique e às carícias do sol. Aproveitámos a deixa para  saudar o dia como se deve. Não há nada melhor para renovar a alma que a chuva de sol, deslizando no azul do céu, a cair-nos na pele desprevenida.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Era uma vez duas mulheres extraordinárias

Era uma vez a Natália. Era uma vez a Rossella. Conheci a Natália em Timor-Leste, era a "mãezinha" do pequeno grupo familiar que formámos para nos sentirmos menos longe de casa. Conheci a Rossella em Itália, uma óptima colega de trabalho que com o tempo se transformou numa amiga formidável. O que têm em comum? São as duas de uma doçura fora do normal e ao mesmo tempo dotadas de uma força capaz de mover montanhas. Guerreiras anónimas que se destacam da média no combate com o fado que nos toca na roleta russa da vida.

domingo, 4 de março de 2012

Um mimo no futuro

Hoje investi no mimo do futuro. Ou seja, em vez de dedicar tempo a mim mesma, dediquei-o a outra pessoa que estava muito mais necessitada. E se as leis do Universo não estiverem demasiado baralhadas, o bem que fiz retornará em triplicado. Ficarei à espera, mas sentada, pois o Universo ultimamente tem estado um bocadinho estranho.

sábado, 3 de março de 2012

Madagáscar no feminino

Hoje a nossa actividade familiar foi dedicada a outros. Fomos à inauguração de uma exposição sobre a obra da Gialuma em Madagáscar, visitável no palácio Chigi de Ariccia. Uma imersão na realidade, odores, ambiente e histórias de um dos países mais pobres do mundo.

A  Gialuma é uma associação sem fins lucrativos fundada por um casal de médicos que se dedica a dar assistência médica gratuita e a melhorar as condições sanitárias e educativas de uma parte muito desfavorida da população de Madagáscar - famílias monoparentais, tipicamente a mãe com uma média de 6 filhos para sustentar. Vale a pensa conhecer um pouco mais sobre o trabalho desta associação, aconselho vivamente uma visita ao website da Gialuma.

A Adelaide adorou o vídeo (contava a história de tantas meninas como ela) e a exposição com aromas exóticos e artesanato de lindíssimo. Odores que enquadram os ambientes de sonho dos turistas mas que escondem situações de miséria (quase) sem esperança. E o quase depende do trabalho das associações como esta que trabalham para tirar as crianças da rua, e quem sabe prolongar a sua infância por mais um par de anos.

saí desta experiência com vontade de olhar mais criticamente o meu estilo de vida. Como dizia a Luana (uma das médicas fundadoras da  Gialuma), a nossa falta de trabalho preocupa-nos, mas é diferente da deles, que tem consequência imediata para a sobrevivência física; A fome deles é muito diferente do nosso apetite; As nossas estruturas de saúde imperfeitas dão-nos mais 20 anos de longevidade.

Abreijos


sábado, 25 de fevereiro de 2012

O Pato Donald é politicamente incorrecto

Já alguma vez se perguntaram porque é que quando o Pato Donald está com uma crise de raiva (ou seja quase sempre) não se percebe nada do que ele grita? Pois eu sei porquê: o Walt Disney lá deve ter pensado que era melhor assim do que pôr um "ppppiiiiiiiii" de censura por cima de metade do que ele diz... E não estou a falar só de palavrões, estou também a referir-me a desabafos classistas que genericamente são indicados como politicamente incorrectos.


quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Casei-me com o Pato Donald

O Pato Donald é uma personagem tão problemática que tem sido usada para descrever diversos síndromes: O síndrome que quem não sabe ouvir e fala fala sem que ninguém perceba nada. O síndrome de quem faz tudo mas não combina nada de bom. E eu agora acrescento outro: o síndrome de quem tem temperamento explosivo.
Quantas pessoas conhecem com temperamento explosivo? Pode ser devido a um período de stress temporário ou pode ser feitio, mas andam por aí muitas pessoas com temperamento explosivo. Eu vivo com um em casa.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

A Adelaide e o crocodilo

Hoje fomos a Roma, visitar os avós do Giuliano. Por causa da neve dos últimos tempos já lá não íamos há três semanas. A Giulia está muito em baixo, tem dores fortes que não passam na perna e tanta incompreensão de quem a rodeia.
Voltámos a vestir a Adelaide de gato, mais para satisfazer os avós que por ela... o seu miado evoluiu para M-A-U e com os caracolitos que lhe brilhavam ao sol parecia mais um leãozinho que outra coisa qualquer.



Sabendo do fascínio que a Adelaide tem pela nossa brincadeira dos bichos a Cláudia comprou um fantoche com o formato de um crocodilo. A Adelaide assustou-se e armou um berreiro que só visto, lágrimas e tudo. Dessa ninguém estava à espera. Será que a minha brincadeira inocente a traumatizou? Tenho que dar a volta à situação: filha minha tem que A-M-A-R estes bicharocos!


Alguém por aí tem alguma ideia para resolver a coisa?
Beijinhos!

Teatro, sempre!

Hoje estamos a exercer a nossa função de avós. Ficámos com a Mariana e a Inês enquanto os progenitores vão passar o dia com o mais velho, que já está quase nos doze, a percorrer os locais de Lisboa onde se desenrolaram os acontecimentos históricos mais marcantes do Cinco de Outubro.
Iniciativa louvável. Todas as crianças - eu diria todas as pessoas, independentemente da idade - deviam ter a oportunidade de identificar onde e como aconteceu o Cinco de Outubro, o Primeiro de Dezembro, o Vinte e Cinco de Abril e qualquer outro episódio importante da nossa História, em Lisboa, no Porto ou em qualquer outra cidade. Alem de enriquecer o conhecimento, acima de tudo ensina-nos a amar a nossa cidade, o nosso país. Não se ama aquilo que se não conhece.

Ora, dizia eu, hoje ficamos com a responsabilidade de imaginar qualquer actividade para entreter as minhas netas. A coisa não é fácil, acreditem no que vos digo. Uma só, ainda vá lá. As duas, ainda por cima juntas, é o cabo dos trabalhos.

De maneira que fui à net e comprei bilhetes para o teatro. Peça para crianças, evidentemente. Fomos ao Politeama ver uma versão do "Pinóquio" encenada pelo La Féria em jeito de musical.

Tivemos ainda tempo de dar uma volta pelo Rossio para apanhar um pouco de sol e dar azo a que as garotas homenageassem condignamente este sábado gordo, a Mariana de "sevilhana" e a Inês (que outra coisa havia de ser senão) de "princesa".

O edifício é velhinho, as cadeiras são incómodas, mas teatro é teatro e nunca perco uma oportunidade de criar nos meus netos o gosto por esta arte que apesar da agressiva concorrência - o cinema, a televisão, o computador - (ainda) não morreu. Foi gratificante sentir que as miudas gostaram, bateram palmas, cantaram e ficaram freguesas de futuras experiências teatrais. Como espectadoras, é claro, se bem que tenho a sensação que a Mariana tem uma certa queda para a representação.

De regresso a casa tivemos a visita do meu neto mais recente, o Ricardo. Felizmente, porque com os seus quase seis meses de idade representa na perfeição o papel de boneco nas mão das primas, mais um factor para as manter ocupadas. Um alívio.

Hoje dormem cá em casa. Amanhã é outro dia.

Assim vão as coisas cá pelo burgo.


quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Miau

Quinta-feira gorda. Estão oficialmente abertas as hostilidades para as festas de Carnaval. Sinto que perdi a oportunidade de fazer eu própria a primeira máscara da Adelaide, mas não faz mal. Tive outras prioridades. Comprei-lhe um fato de gato que quase quase lhe serve também para o próximo ano e lá foi ela para o infantário toda compenetrada do seu papel. Praticámos toda a semana um "m-i-a-u" compreensível, mas o melhor que lhe sai por enquanto é "m-a-í". A mim soa-me a um miado perfeito! Não está linda?

Beijinhos!




terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Etecetera e tal

Diz o poeta Guimarães Rosa que viver é etecetera. Atrevo-me a dizer que lhe faltou o tal na definição. É certo que viver é o etecetera de todos os dias, o etecetera inglório que omitimos quando trocamos novidades, o etecetera  que se dilui no casa-trabalho-trabalho-casa monótono com que resumimos a nossa existência. Mas no viver existe também o tal. O tal está para o viver como o sal está para o pão. Por exemplo, o dia de S. Valentim: não é uma obrigação calendarizada, é um pretexto para acrescentar um tal ao etecetera. Seja esse tal uma ida ao cinema, uma flor, um jantar romântico ou um simples beijo na bochecha.
O meu tal para o Giuliano foi um envelope com seis vales sem data de validade, para serem levantados quando entender. Vale para um jantar de gastronomia romântica. Vale para uma noite de amor descadenado. Vale para um fim-de-semana num sereno onde calhar. Vale para um dia de inspiração cultural. Vale para um passeio de insignificante abandono. Vale para uma caminhada na natureza luxuriante.
O tal do Giuliano para mim foram flores e chocolates em forma de coração.
Cozinhei gnocchi feitos à mão, em molho de tomate e cogumelos. E agora deixo-me adormecer no sofá ao lado dele, abandonando-me ao etecetera com um sorriso de tal nos lábios.


Beijinhos

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Em fuga pelos sonhos



Domingo. Amanhã começa a semana. Amanhã dirão os textos, livros, professores? Oh menina, então  não aprendeu que o primeiro dia da semana é Domingo? Pois claro que aprendi. Mas mudou tanta coisa na vida que decidi mudar também essa. Há que tempos que o primeiro dia da semana para mim é Segunda-feira. Questão de (des)organização mental.
Mas dizia eu, Domingo. Dei-me ao luxo de dormir a sesta. Fui adormecer a Pimpolha e acabei por ficar com ela naquela modorra quentinha, a ouvi-la respirar. E depois deixei-me levar pelo esquecimento do sono. Se pudesse teria dormido a tarde toda, perpetuando ao máximo a minha fuga por entre sonhos e dimensões inventadas. Acordei com o Giuliano a vociferar impropérios contra as redes sociais, a Internet e tecnologias afins. Conseguiu apagar a sua página do LinkedIn, mas ainda aparece nos motores de busca com a informação profissional resumida. Irritado até à quinta potência, transforma o assunto numa questão de princípio - não se sente dono e senhor da sua identidade. Dou por mim a pensar onde acabam os princípios e começa a obsessão e a desejar ardentemente não ter acordado.
Lá fora recomeçou a nevar, mas é uma nevezinha tão tímida que nem me alimenta a esperança de não conseguir ir trabalhar amanhã. Como tímidos têm sidos os meus esforços de disciplinar-me a recomeçar a fazer exercício físico. Quem poderia imaginar quanto é difícil  encontrar 15 minutos por dia para fazer exercício? É que há sempre qualquer coisa mais importante para fazer. Quanto mais não seja brincar com a Besnica. De maneira que resolvi enganar a minha percepção de prioridade. Em vez de 15 minutos por dia de exercício sério (sei lá, yoga, Pilates, aeróbica) decidi fazer 15 minutos diários de brincadeira movimentada. Dançar, brincar na neve, fazer cambalhotas, jogar à apanhada. A Adelaide está disposta a tudo, basta acompanhá-la. Uma das nossas brincadeiras preferidas é imitar os animais, e escusado será dizer que o animal mais divertido é o crocodilo. Como se imita o crocodilo? Estendemo-nos, eu agarro a Adelaide e começamos a dar voltas que nem croquetes na coberta enquanto faço barulho com os dentes. Ah pensam que é fácil? Então tentem lá!!  E seja como for conta como exercício físico!

Beijocas!

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Brincadeiras na neve

Hoje tinha pensado ir à Fiera de Roma ver a Feira Internacional do Hobbie e do Jogo, mas para não fugir à tradição (é o terceiro ano que não consigo ir) também este ano me fiquei pela intenção. Desta vez foi a neve. Começou a cair ontem, de mansinho como se não fosse nada, e depois intensificou. De maneira que hoje ficámos por casa e transformámos o nosso divertimento familiar em brincadeiras na neve.
Fizémos um anjo, atirámos bolas de neve e por fim construímos o nosso primeiro boneco, com chapéu e tudo. A Adelaide estava tão agasalhada que mal se conseguia mexer.

Que coisa estranha, é fria e molhada a neve!  

O nosso primeiro boneco de neve
E por aí, que actividades familiares fizeram hoje? Partilhem!!
Beijinhos 

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Rescaldo

No sábado passado fomos a um encontro dos “5x2”.
5, porque somos cinco (agora) sexagenários que a certa altura, já lá vão uns bons anos, decidimos juntarmo-nos periodicamente no sentido de contrariar a tendência natural do afastamento para o qual a vida frequentemente nos empurra. Vivemos em zonas geograficamente distantes e temos sensibilidades políticas, religiosas e sociais distintas. No entanto há uma afinidade comum, resultante de termos vivido juntos as agruras de um cenário de guerra, dois anos penosamente violentos em que a estreita faixa entre a vida e a morte, entre a loucura e a sanidade mental, é mais facilmente percorrida se se tem os compagnons de route que amenizam os piores momentos. Essa afinidade manteve-se ao longo de dezenas de anos porque ficou ancorada noutra dimensão, num patamar acima das naturais divergências de personalidade de cada um.
x2, porque, felizmente, todos somos acompanhados e secundados pelas respectivas consortes que lograram, tambem elas, estabelecer uma corrente de ligação entre si.
No sábado, dizia eu, reunimo-nos os "5x2". Em casa de um de nós, em Carnaxide.
Comemos, conversamos, comemos, fomos a um concerto de música sinfónica, comemos, mostramos fotografias de netos, comemos, discutimos, resolvemos os problemas do mundo e, principalmente, comemos.
Francamente não sei como se processam tertúlias deste tipo em Espanha, Itália ou na Suécia. Mas porquê que em Portugal o elemento fundamental, irredutivelmente omnipresente, é uma mesa carregada de convidativas comezainas a que ninguem se consegue furtar? Evidentemente que cada um se esmera em comparticipar com umas “coisinhas” que traz lá da sua zona e o resultado é este: queijos e enchidos, muitos e dos mais variados; os tradicionais croquetes, empadas e afins; o pão daqui e dacolá, estaladiço, apetitoso; travessas cheias de fruta da época e sem ser da época e as inevitaveis “especialidades” que vieram dos Açores, do Alentejo ou de outro sítio qualquer – todas as terras que se prezam têm uma especialidade. E depois, há uma “ponte aérea” sempre em movimento entre a cozinha e a sala com a constante preocupação de repôr devidamente os stocks à medida que as travessas vão ficando vazias. É certo que a base do convívio é o diálogo e, estranhamente, ninguem fala com a boca cheia, mas que as coisas vão desaparecendo rapidamente dos pratos, lá isso vão! Claro está que quando finalmente chega o prato de “substância”, o elemento de faca e garfo que é da responsabilidade dos anfitriões, já não sobra vontade mas ninguem tem a coragem de “fazer a desfeita” à dona da casa. E continua-se a comer...E vêm os doces, os que são pudins, os que são bolos, os que se comem com colher, os que se comem com garfo. “provem mais este que é muito bom, tem café”, “não me digas que não dás sequer uma dentadinha neste bolinho para experimentar”.
Hora do concerto. Ali tão perto que nem deu hipótese de andar um bom bocado a pé para arejar, o auditório do Centro Cívico estava a abarrotar. Oh deuses, que vontade de dormir depois daquele banquete! Vá lá que os acordes de Mozart e de Shubert animaram o suficiente para não passar pela vergonha de roncar ao ritmo da trompa.
Voltamos a casa. Mais dois dedos de conversa e, irrecusavelmente – “não me façam essa desfeita!!” – mais um caldinho para aquecer para a viagem. E mais um presuntinho, e um queijinho, e um croquetinho, e mais não sei quantos inhos.
Despedimo-nos até ao próximo encontro. É em Cabeceiras de Basto e com visita já programada a Guimarães, este ano a capital europeia da cultura. Em Junho, felizmente, para dar tempo a recuperar.
Ontem quase não me mexi em casa: foi o rescaldo.

domingo, 29 de janeiro de 2012

O Síndroma de Chaplin

Chaplin era genial ! Alem de actor, realizador, produtor, escritor, músico, dançarino, ele tinha como nenhum outro o dom da comédia. Sempre com humor, tirando partido de uma subtil pantomima, punha a nu os graves problemas de uma sociedade em plena transformação, desde as contradições de uma revolução industrial em curso, até à ascenção das ideologias hitlerianas. As imagens dos seus filmes, sem necessidade de texto, derrubavam qualquer barreira linguística e eram compreendidas em todo o mundo.
Recordo, por exemplo, a inolvidável caricatura do operário de Tempos Modernos que passava dias, semanas, meses, com uma chave inglesa em cada mão, unicamente a apertar as porcas que deslizavam perante ele, sem parar, numa linha de montagem. De tal modo que, quando um dia terminou o seu turno de trabalho e saíu para a rua, não conseguiu dominar o tique automático das mãos e acabou a tentar apertar, como se fossem porcas, os botões do casaco de uma senhora que passava perto.

Esta cena começou a vir à minha memória desde que a Mãe, todas as noites depois de jantar, se senta em frente à televisão a fazer tricot. Deita de vez em quando um rabo de olho ao programa, vai trocando um ou outro comentário comigo, e tricota, tricota, tricota, em movimento contínuo, uma agulha em cada mão, cadência rápida e precisa. Tricota tudo e mais alguma coisa: camisolas, coletes, meias, barretes, pantufas, para as filhas, para as netas, para as amigas, para as netas das amigas. Num simples serão consegue tricotar um par de sapatilhas como as que estão na imagem.

Dada esta produção em série, quase industrial, eu penso que isto já não é tricotar, é tetracotar ou pentacotar.
De forma que, francamente, tenho andado com algum receio que de um momento para o outro se revele alguma crise aguda do Síndroma de Chaplin e a Mãe saia para a rua com as mãos a dar a dar como se tivesse e acabar urgentemente uma encomenda para alguem.
É sabido que estas doenças assim como aparecem tambem desaparecem e a minha esperança é que a Mãe ultrapasse rapidamente a fase do tricot e, como não consegue estar parada, parta para outra. Mas por enquanto, pelo sim pelo não, sempre que saímos juntos eu levo um saquinho no bolso do casaco. Se lhe der alguma crise, estarei assim pronto para aparar as moedinhas que as pessoas derem à aleijadinha.
Nos tempos que correm não se pode perder qualquer oportunidade para equilibrar o orçamento familiar.